eu precisei colocar o meu telefone pra carregar e pra desopilar um pouco a cabeça, eu fiquei em silêncio. A mente do ansioso é estranha, porque, mesmo calado eu ainda torço e vibro pro tempo passar, só pra poder pegar meu celular de novo.
daí eu fui percebendo o ambiente, coisa de maluco que tenta driblar a rotina massante e depois postar: \"três coisas que vejo, duas que eu escuto, uma que eu sinto\", pra tentar acalmar a mente.
eu ouvi o barulho dos grilos, o som do nada que deixa perceptível a falta da interferência da mediocridade humana com o furdunço e gritos pela rua. Escutei lá no fundo a água do meu café ferver, me lembrando que eu precisava passar, se não, não teria o que beber.
conferi a louça limpa, todas guardadas, nada o que fazer, nada o que arrumar, só aguardar e aguentar a sensação de vazio que aparece quando minha cabeça não tá farta de imediatividade que eu mantenho sem parar.
um cachorro lá fora latiu várias vezes, e depois se calou. Por dentro, eu torcia que ele continuasse latindo pelo resto da noite e só agora eu notei que eu continuei calado desde que eu cheguei em casa.
o som do carro na estrada ocupou minha voz interna, mas ainda foi como se ela repetisse o ruído, querendo atormentar. Quem olha de longe ignora meu jeito calado, já que eu não faço barulho o suficiente pra incomodar.
observar meu mundo ao redor me fez refletir que talvez eu nunca fosse quieto, eu sempre gritei nos meus pensamentos. Meus momentos tensos mantiam apaziguados certos tormentos internos que se estivessem pra fora eu não saberia lidar. Foi árduo pensar demais, mas eu decidi que não vou esperar o celular carregar.