thally mateu

A arte que se vende

meu amor, não duvide da minha ponta afiada... Meu sangue escorre tinta de caneta, se cortar demais cê suja a mão. Eu respiro palavra, seco meu rosto em papel toalha e vivo a mercê do que meus versos me propõem a fazer, coisa que sua indústria mequetrefe não consegue replicar.

 

meu caderno fede a sentimentos lindos; o ardor do álcool na garganta é minha inspiração maior pra reger uma orquestra magistral em frases; o que há nessa existência incrível para tecer em títulos e gritos poéticos do êxtase que sinto, pra mim, é o melhor do mundo.

 

eu sei dar sentido às coisas simples e o respiro do dia é o que compõe muitas das minhas rimas e sei ainda mais a significância de ser eu, ser completo, ser repleto do que a arte pode me proporcionar. E pode até achar esperto criando e criando textos vagos, quando o mais importante você não sabe entregar.

 

quantas vezes viveu tudo que diz escrever nas suas pausas pro café da tarde? Sua sala decorada com centavos de poesia automatizada não provam alguma individualidade que prega ter por aí. E é por aí mesmo que suas obras circulam. Sabe o peso de comercializar fórmula mágica pra escrever?

 

não me surpreende dividir espaço com um senhorzinho comprado em notas pra publicar textos e mais textos sem ter vivido verso algum. Tua arte barata regado em pragas não vai me servir e nenhum contrato qualquer pode me fazer largar o meu prazer de fazer o que amo. Preciso repetir?

 

vale de quê teu esforço gastado em vão por algo que paixão alguma floresce em ti? A poesia virou tão chucra ao ponto de ser ignoradas as alegrias que viveu aqui, em vida? É tão raso de espírito mas transborda em dinheiro daquilo que sequer inspira teu fazer poético.

 

e eu poderia rir por horas te vendo encarar esse teclado aí seu, tentando pôr o sopro de orgulho da vida boa que o capital te deu. Várias antologias, noites mal dormidas, propostas e encargos que te tiram a paz, e isso você vangloria em ter. Nunca pensou em dar trégua?

 

isso quando não mede os seus versos com uma régua. Tua rima não pode ultrapassar as margens das folhas, né não? Deixar esteticamente bonito e milimetricamente calculado é mais interessante já que tá nos teus padrões de ganhos. Se vende na primeira vez, que mal faz repetir a dose então?

 

aproveita tua receita e tenta trazer algo inédito uma primeira vez. Que não seja uma imitação de algo que já existe, talvez seja até melhor encarar teus medos e fazer uma coisa que é verdade pra você. A poesia pode te salvar, como me salvou, mas você tem que se esforçar pra merecer. 

 

A arte boa existe na alma, e isso você sabia antes de se vender.